O ENSINO NA LÓGICA CAPITALISTA - REPROVAR OU PASSAR DE QUALQUER JEITO?

 



Foto: Portfoliobox


Durante o século XX era comum, entre os estudantes secundaristas e primários, o receio da recuperação ou repetência de ano letivo. O que estas terminologias significavam? Recuperação era o nome que se dava ao período extra letivo, geralmente uma semana ou duas a mais de aulas para os alunos que não haviam adquirido as habilidades necessárias ou conhecimentos para ascender ao ano letivo seguinte.  

Nessas semanas, além do conteúdo teórico, os estudantes faziam trabalhos de acordo com suas deficiências para atingir o patamar desejável e que seria cobrado no próximo nível. Muitos até gostavam, pois se sentiam mais acolhidos e observados pelo professor, devido a quantidade menor de alunos em sala. No entanto, entre os colegas de turma, quem ficava de recuperação tinha a pecha de alunos displicentes ou desinteressados.  

Repetência era o nome dado ao processo de não aprendizado necessário, mesmo com a recuperação, para o ano letivo seguinte. Nesses termos o aluno teria que fazer novamente a série em que havia frequentado no ano anterior. Muitos, indevidamente, se revoltavam contra isso, no entanto os que assim agiam eram os que não prestavam atenção em aulas, não entregavam trabalhos, nem tiravam boas notas nas provas. Assim era esperada a reprovação. 

Eram outros tempos, outros contextos, tempos em que a Educação era tida como valor, tanto do ponto de vista subjetivo, como social e econômico e isso era visto no cotidiano, de forma empírica, até o final da década de 1990, onde quem estudava era respeitado socialmente, tinha um salário digno e vivia bem. 

Devido a todos esses quesitos as famílias tratavam de incentivar seus filhos a estudar, se dedicar e aprender para ser um cidadão correto e passar de ano. 

Quem chegava à universidade era visto com outros olhos, pois já saía empregado antes de concluir o curso com salário alto, a ponto de àquela geração desprezar concursos e quem os fazia eram tidos como limitados, pois a onda neoliberal já estava a todo vapor e, como até hoje, o Estado era visto como fonte de atraso. 

As empresas privadas iam buscar os talentos dentro das universidades, muitas pediam até para o estudante deixar ou trancar, talvez aí o primeiro sinal de mudança. 

Com o tempo não só a visão social do estudo foi modificando como o mercado não mais tinha o movimento de pescaria de talentos na universidade. As situações das famílias cada vez mais precárias pressionavam o antigo sonho de prosperidade através dos filhos ao imediatismo da renda, mesmo baixa, para o aqui e o agora. 

Trabalhar, primeiro, passou a ser o lema, depois retornariam aos estudos. Concomitante a isso o ensino básico começou a dar sinais de queda, escolas tradicionais fechando, professores experientes se aposentando ou antecipando a aposentadoria, pois não aceitavam a aprovação automática, sem o mínimo critério ou responsabilidade social. 

As empresas públicas terceirizando seus serviços ou colocando estagiários. A mudança era geral. O que antes tinha valor foi ficando escanteado. Agora era visto como algo acessório, desnecessário tanto pelas famílias como pelas empresas que queriam mão de obra barata.

Com a saída de muitos talentos, formados para a docência (licenciaturas), buscando condições melhores em outras profissões, o Estado passa a aceitar pessoas sem formação ou sem a formação indicada para as disciplinas e a ideia do empreendedorismo é implantada nas periferias como a solução das vidas de seus moradores e que o ensino só teria sentido na parte prática, a teoria não seria "útil". 

O que seria esse “útil” na Educação? O útil já desmascara a intenção mercadológica do conhecimento em que o ser humano, holisticamente falando, é desprezado pelo simples prazer do apelo material imediato, assim como animais irracionais vivem. 

Quem havia prosperado até o final da década de 90 se deu bem, ajudou os pais, ajudou familiares e conseguiu a emancipação completa que a Constituição Federal de 1988 incentiva que o país deva fornecer aos seus, em termos de oportunidades e salários. No entanto o Brasil nunca respeitou sua Constituição nos aspectos básicos, iria respeitar na Educação?

Até a década de 1990 os sonhos dos estudantes eram: ter emancipação financeira cedo para morar fora do Brasil e conhecer o velho mundo (Europa) e outros países com seus históricos e riquezas culturais.  

Do ano 2000 em diante o que se viu foi uma mudança na postura da juventude, época que as consequências do estímulo a limitação do conhecimento e dos sonhos ficaram mais claros, pois invés de intercâmbio, novos países, passaram a sonhar com casamento, filhos e demais que só se ouvia falar na geração 1970-90 depois dos 30 ou 40 anos. 

O século XXI começa conservador e cheio de propostas dogmáticas religiosas para a tal salvação do mundo. Muitos da geração 1940 a 1960 acreditavam que o mundo acabaria no ano 2000. Religiosos propagavam, enfim... várias teorias mirabolantes e de decretação fantasiosa da realidade, típica de sociedade mítica e desordenada. 

E o que isso tem a ver com a questão da reprovação ou não do educando em seu processo ensino-aprendizagem? Tudo, pois a partir do momento que se desestimula o ser humano, no início da vida, a não ter interesse ou ver utilidade no conhecimento na escola, na faculdade e na ciência, complica não só a vida do estudante, mas o trabalho do professor. 

Algumas pessoas que já passaram por sala de aula não sabem e nem querem saber nada sobre o que é educar. Educar é mais do que simplesmente adquirir conhecimento e habilidades, e quando o pseudo-docente despreza conteúdos críticos, reflexivos, subjetivos ou criativos, os desqualificando não entendeu a essência da Educação. 


CARLOS GLEIDSON


23/02/2025

11:34 H


CAUCAIA/CE

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